Um diagnóstico para chamar de meu

Freud inventou essa coisa genial em
que duas pessoas se sentam uma vez por dia,
para conversar sobre os temas mais
profundos e mais importantes. Você não
consegue isso tomando antidepressivos.
Hanif Kureishi

A saúde mental está na ordem do dia. Nunca se falou tanto sobre cuidado com a saúde mental, mas também nunca se falou tanto em transtornos, síndromes e desordens psíquicas. Nunca se diagnosticou e, consequentemente, se medicou tanto quanto em nossos tempos.Já passou da hora de colocarmos os diagnósticos na berlinda ou no banco dos réus, parafraseando Lacan. Ou mesmo no divã, como exige a ética da prática psicanalítica.

A querela em torno dos diagnósticos não é recente. Contudo, ganha novos contornos e se intensifica diante do uso, muitas vezes abusivo, das classificações diagnósticas como resposta ao mal-estar do sujeito. Mas, afinal, para que serve um diagnóstico? Ou, mais precisamente, do que falamos quando falamos de diagnóstico, sobretudo no campo da saúde mental?

No dicionário, o verbete diagnóstico vem acompanhado da definição de “ato ou efeito de diagnosticar; conhecimento ou determinação de uma doença pelos seus sintomas, sinais ou diversos exames”. Também pode ser entendido como a fase de investigação sobre a natureza e as causas de determinada doença.O campo da saúde e, mais especificamente, da saúde mental, avança para além dessas definições e toma como referência sistemas classificatórios, como a Classificação Internacional de Doenças (CID) e o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM). Trata-se de um modelo que organiza fenômenos psíquicos em categorias e orienta tratamentos que, não raro, têm como principal recurso a medicação. Para cada conjunto descritivo de sintomas, há uma pílula possível.

Estamos diante de uma verdadeira epidemia diagnóstica, e esse discurso diagnosticista tem sido uma das marcas da saúde mental contemporânea. Os diagnósticos circulam a boca pequena e, cada vez mais, ultrapassam os limites dos consultórios. Profissionais e leigos, médicos e pacientes, fazem uso das letrinhas em caixa alta e dos códigos numerados para definir comportamentos, afetos e modos de existir.

Nesse uso excessivo do diagnóstico, as nomeações dos transtornos, déficits e síndromes ocupam o lugar do nome do sujeito, apagando sua singularidade. Comportamentos e afetos cotidianos, comuns à existência humana, são elevados a uma potência exagerada e convertidos em patologias. Todos passam a portar uma etiqueta, um diagnóstico para chamar de seu, com o qual se apresentam no laço social.

Essa explosão diagnóstica, sustentada por uma clínica descritiva e estatística em que todos parecem caber em alguma categoria, vem acompanhada de outro elemento importante: a crescente medicalização da vida. Estamos cada vez mais à mercê das pílulas que prometem regular comportamentos e afetos. Sentir tornou-se perigoso.

Mas a pergunta sobre o diagnóstico insiste: ele está a serviço de quê? E de quem?

A clínica psicanalítica interroga o diagnóstico no divã, pois essa lógica de hierarquização e classificação não lhe serve de fundamento. Seu fundamento está na estrutura, naquilo que constitui o sujeito. A psicanálise não é uma psicoterapia e não se orienta pelos padrões de um diagnóstico descritivo, objetivo e classificatório. Ainda assim, o diagnóstico também chega à clínica psicanalítica, muitas vezes acompanhado da expectativa de uma resposta rápida, de um enquadramento ou de uma solução pronta.

Na direção do tratamento psicanalítico, o diagnóstico pode servir como bússola, mas jamais como resposta. O contraponto que a psicanálise oferece está na escuta. Uma escuta que permite tomar essas nomenclaturas para além da simples colagem ou do apagamento subjetivo, fazendo delas significantes capazes de se deslocar, contar uma história e produzir novos sentidos.

Trata-se de possibilitar que cada sujeito, à sua maneira e de forma singular, construa um saber sobre sua condição e sobre seu modo de lidar com o mal-estar inerente à existência. Pois viver, sim, é perigoso. E não se vive sem angústia.

Diante desse furor diagnóstico e classificatório, a psicanálise propõe privilegiar o sujeito e seu desejo, na contramão do furor sanandi que atravessa tantas especialidades terapêuticas. O convite feito pela psicanálise é que o sujeito fale, diga de seu mal-estar e possa interrogá-lo.Não nos interessa “fechar” um diagnóstico, mas promover, ao longo do percurso analítico, uma abertura capaz de romper o engessamento e a robotização do sentir. As nomenclaturas diagnósticas pouco interrogam o sujeito acerca de seu sofrimento. Ao contrário, muitas vezes funcionam como tamponamento, silenciando aquilo que o sintoma tem a dizer.

Assim, o que nos interessa na escuta clínica psicanalítica é sustentar uma interrogação que possibilite a construção de estratégias singulares e inventivas diante do mal-estar, sem aderir, a priori, a tratamentos padronizados.

P.S.: Esse artigo traz fragmentos do Capítulo “A querela diagnóstica”, da minha tese de doutorado “Marcas de uma infância contemporânea: um olhar a partir da clínica”. Você encontra outros textos que tratam dessa discussão no link da bio do meu perfil do instagram.

 

GLAÚCIA PINHEIRO
Psicanalista e Doutorada em Psicologia.
Contatos:
Instagram: @glauciappsicanalise
Cel/ Whats: 22 98151 0432
E-mail: galpinheiros03@gmail.com

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