Diante do sofrimento psíquico e do adoecimento mental, você sabe a quem recorrer?
Diante do sofrimento psíquico e do adoecimento mental, você sabe a quem recorrer?

Não é terapia, mas é terapêutico. Uma confusão de termos, teorias e práticas

Não é terapia, mas é terapêutico.
Tenho certeza de que você já leu essa frase em algum post nas redes sociais. Ou já ouviu de algum amigo, se referindo àquela atividade que ele tanto ama praticar, querendo te convencer a acompanhá-lo num sábado de sol.  Um clichê sempre repetido, muitas vezes por alguém que está interessado mais nos efeitos terapêuticos e menos em saber de que se trata quando falamos de “terapia”. Da cerâmica à corrida, da escrita ao pedal, do crochê ao samba, entre aulas de dança, cursos de ioga, clubes de leitura, meditações e sessões de massagem, inúmeras atividades que nos tiram da rotina, relaxam, liberam endorfina e promovem certa dose de bem-estar, são enaltecidas por seus efeitos terapêuticos.
Recentemente me deparei com uma nova versão dessa frase. O que é terapêutico não substitui a terapia. De fato. Porém, não menos clichê essa tentativa de corrigir o equívoco. Mas de que se trata quando falamos de “terapia”?
Coloco aqui a palavra “terapia” entre aspas porque é justamente sobre ela que recai tantas distorções e equívocos. Quando um termo ou palavra, com suas significações e abstrações, nos joga em meio a confusão da língua, trazendo diversos significados e caminhos de aplicação, sempre acho prudente recorrer ao dicionário. Ali, como a primeiríssima e mais geral forma de abordar esse conceito, encontramos o significado de “terapia”como tratamento de doentes ou qualquer (veja bem, qualquer) forma de intervenção para tratar problemas físicos e/ou psíquicos. No quadradinho das terapias cabe uma infinidade de atividades. É aí que mora o equívoco, que se avizinha das distorções e que gera uma enorme confusão de termos, teorias e práticas.
São inúmeras as formas de “terapia” e essa palavra, associada a alguns prefixos e complementos, ganha significações bastante diversas. Hidroterapias, terapias medicamentosas, integrativas, holísticas, ocupacionais, fisioterapias, terapias corporais, psicoterapias… entre tantas outras. Mas é em torno dessa última modalidade que as confusões se avolumam. Até mesmo a série televisiva utiliza esse vocábulo para encenar uma prática clínica com distorções e equívocos.
Não temos dúvidas de que uma sessão de fisioterapia precisa ser conduzida e praticada por um fisioterapeuta. Também não temos dúvidas de qual especialidade médica devemos procurar quando nossa visão começa a falhar ou quando um mal-estar gastrointestinal nos incomoda. Por que, diante do sofrimento psíquico e do adoecimento mental, nunca se sabe ao certo a quem recorrer? Quando falamos do campo psi, no tratamento do sofrimento psíquico, esbarramos em inúmeras práticas alternativas, não autorizadas, exercidas por pessoas pouco ou mal preparadas, querendo tirar um naco do mercado da saúde mental, utilizando-se de um título mal-ajambrando e, muitas vezes, vendendo gato por lebre.
Psiquiatria, Psicologia e Psicanálise são práticas do que podemos chamar de campo psi. Práticas terapêuticas com formação, formulações teóricas e direção de trabalho clínico bastante diferentes. Práticas autorizadas, podemos dizer assim, ao tratamento e acolhimento do sofrimento psíquico. Práticas que também fazem parte do campo da saúde mental, juntamente com algumas outras formas de “terapia”, como por exemplo, a terapia ocupacional, conhecida como T.O., que não é uma psicoterapia e nem uma prática de tratamento do sofrimento psíquico.
E você sabe a diferença entre Psiquiatria, Psicologia, Psicanálise e essas tantas outras terapias ofertadas por aí? Você sabe qual a formação necessária para ocupar a função de psicanalista (ou analista), de psicoterapeuta (ou psicólogo), de psiquiatra? Você sabe que Psicanálise e Psicologia não são a mesma coisa, não realizam o mesmo trabalho clínico e não têm a mesma formação? E, inclusive, você sabe que a Psicanálise NÃO é uma abordagem da Psicologia? E que tantas terapias que circulam por aí não tratam o sofrimento psíquico?
Esclarecer essas diferenças e aproximações pode parecer um preciosismo. Mas não é. É uma questão ÉTICA, principalmente nesses tempos de IA, das redes sociais como um campo minado das vendas e do marketing pessoal, além da infindável oferta de cursos on-line e especializações que prometem o milagre da formação em 6 meses, com certificado, título e carteirinha. Principalmente quando se refere à Psicanálise. Dizer-se psicanalista nesses tempos parece ter se tornado um ativo nas redes sociais.
O sofrimento psíquico não é mercadoria.
O sofrimento psíquico não é mercadoria.

Mas vamos começar pela PSICOLOGIA.

A Psicologia é uma prática profissional regulamentada por lei. Foi instituída como profissão no Brasil em 1962. Embora seja uma jovem senhora no solo brasileiro, a Psicologia, como ciência, surgiu em terras alemãs, em 1879, de forma objetiva e experimental, quando o médico e fisiologista W. Wundtfundou o primeiro laboratório de psicologia experimental do mundo.
Em nossas terras, para atuar com psicólogo é necessário graduar-se em Psicologia e ter o registro profissional no Conselho Regional de Psicologia (CRP). É preciso diploma e registro. O psicólogo pode atuar em diferentes campos: clínica, escola, organizações, hospitais, instituições, esporte, área jurídica. É um profissional que atua na promoção da saúde mental, no acolhimento do sofrimento psíquico, de questões comportamentais, cognitivas e está autorizado a realizar psicodiagnósticos, avaliações institucionais, testes psicométricos e de personalidade. A clínica é, portanto, apenas um dos campos possíveis de atuação do psicólogo. Além disso este profissional está submetido à um Código de Ética Profissional.
Quando o psicólogo trabalha na clínica, realiza a PSICOTERAPIA (que é de certa forma um tipo de terapia, uma vez que terapia, na linguagem dicionaresca, é qualquer forma de tratar problemas físicos e/ou psíquicos), prática que é privativa do psicólogo. Há diferentes abordagens teóricas que orientam esse trabalho. A Psicologia tem uma formação generalista e exige um estudo de diversas teorias da personalidade,inclusive da Psicanálise, como uma das muitas disciplinas teóricas dessa graduação. Porém, ninguém conclui um curso de graduação em Psicologia e está autorizado a nomear-se psicanalista ou exercer a psicanálise. O curso de Psicologia forma psicólogos.

E a PSIQUIATRIA?

A Psiquiatria, por sua vez, é uma especialidade médica, também do campo da promoção da saúde mental e do acolhimento do sofrimento psíquico. O psiquiatra é um médico que, depois da graduação em Medicina, realiza uma especialização ou residência em Psiquiatria. Ou seja, todo psiquiatra é médico de formação. É o profissional habilitado a realizar diagnósticose prescrever o uso de psicofármacos. Nenhum psicofármaco deve ser utilizado sem a prescrição e o acompanhamento cuidadoso de um psiquiatra. O psiquiatra, na sua prática clínica, realiza consultas médicas (e não psicoterapia), que podem ser pontuais ou frequentes, de acordo com a particularidade de cada caso. O psiquiatra conduz com o paciente uma terapia medicamentosa e está também submetido também a um código de ética profissional.
Dito isso, concluímos que Psicologia e Psiquiatria são profissões regulamentadas, com formações universitárias específicas.

E o TERAPEUTA?

“Terapeuta” é uma denominação ampla, utilizada para diferentes modalidades terapêuticas, inclusive para práticas profissionais que não fazem parte do campo psi (fisioterapia, terapia ocupacional… lembra?!) com diferentes formações. Não necessariamente formações acadêmicas e universitárias. Algumas dessas práticas não são regulamentadas e são consideradas alternativas. Como exemplo podemos citar a prática conhecida como Constelação Familiar, que não é uma especialização da psicologia e nem mesmo reconhecida por esse campo. Ou seja, muitos terapeutas e terapias são autorizados através de cursos livres e curtos, por vezes sem nem mesmo a exigência de uma graduação prévia.

E a PSICANÁLISE?

Talvez seja justamente aqui que as confusões se tornam mais complexas. Psicanálise não é Psicologia. Psicanalista e psicólogo não são a mesma coisa, não realizam o mesmo trabalho clínico e não têm a mesma formação. E, embora a teoria psicanalítica faça parte da formação universitária de muitos psicólogos, a Psicanálise não é uma abordagem da Psicologia.
A diferença começa pela própria formação. Enquanto a Psicologia é uma profissão regulamentada, que exige uma graduação e tem um diploma como produto, como já dito anteriormente, a formação do psicanalista é de outra ordem. É uma formação ética, e não técnica. Não há graduação, faculdade, especialização, mestrado, doutorado ou pós-doutorado que dê a alguém o título de psicanalista. Esses espaços podem ensinar a teoria psicanalítica, promover o estudo de Freud, Lacan e tantos outros autores. Mas a Psicanálise não se ensina como qualquer outro saber, como salienta Lacan, e não basta o estudo teórico na formação do analista. Há uma diferença fundamental entre o ensino da teoria e a transmissão da Psicanálise.
Para entender essa diferença é preciso voltar a Freud. A Psicanálise nasce com ele, também no final do século XIX, porém a partir da clínica. A prática psicanalítica se sustenta no rigor dos conceitos forjados por Freud. É, portanto, em sua base, teórica, prática, clínica e ética, freudiana. Freud era médico, neurologista, mas progressivamente afastou a Psicanálise do campo médico e sustentou que sua prática não deveria ser uma prerrogativa da Medicina. A Psicanálise é leiga. Em 1926, em A questão da análise leiga, texto de leitura obrigatória para todo aquele que pretende se aproximar dessa prática, Freud defende justamente a possibilidade de que não médicos exerçam a Psicanálise.
Um diploma universitário não forma um psicanalista. Está em Freud o fundamento dessa formação, sustentada em um tripé: análise pessoal, estudo teórico e supervisão clínica.  A transmissão da Psicanálise passa pela experiência na carne, pela passagem pelo divã. Não há analista sem que aquele que pretende ocupar essa função tenha, ele próprio, passado pela experiência de uma análise. A formação do analista não se faz apenas pela aquisição de um saber teórico sobre o inconsciente; ela exige a experiência do próprio inconsciente.
A Psicanálise não é uma teoria que se aprende para ser aplicada sobre alguém, assim como o analista não é aquele que detém um saber sobre o outro e utiliza uma técnica aprendida para interpretá-lo. É justamente por isso que a análise pessoal ocupa um lugar tão fundamental na formação: não se pode prescindir da experiência do inconsciente.
E não basta deitar-se no divã ou estudar a teoria. Tornar-se psicanalista pressupõe também a prática clínica e a supervisão dessa prática. Não há analista sem clínica. Aqueles que se dedicam ao estudo da teoria psicanalítica, mas não passam pela experiência de análise e não conduzem análises, podem ser importantes estudiosos e teóricos da Psicanálise, mas isso, por si só, não os autoriza psicanalistas.
Os espaços de estudo, ensino e transmissão da Psicanálise surgem muito cedo na história do movimento psicanalítico. Ainda em Viena, Freud reunia em torno de si aqueles que começavam a se interessar pela nova prática nas conhecidas reuniões das quartas-feiras. Aos poucos, a Psicanálise deixa os círculos vienenses, ganha adeptos e atravessa fronteiras. Mas, à medida que se expande, também começam a aparecer divergências, rupturas e desvios teóricos e conceituais.
Quanto mais a Psicanálise avançava, mais Freud se via às voltas com a necessidade de sustentar o rigor dos conceitos que havia forjado. Mais adeptos, mais desvios. E Freud permaneceu incansável nesse trabalho. Manteve até o fim de sua vida e de sua obra a preocupação com os fundamentos e os destinos de sua invenção.
A Psicanálise é e sempre será freudiana. Mas ela não se limitaa Freud. E é justamente aí que entram os pós-freudianos e, principalmente, Jacques Lacan.
Diante dos desvios promovidos pelos pós-freudianos, Lacan propõe um retorno a Freud. Mas retornar a Freud não significava simplesmente voltar a ler seus textos. Tratava-se de recuperar o rigor e a radicalidade da invenção freudiana do inconsciente. Ao reler Freud, Lacan produz avanços fundamentais para a Psicanálise e recoloca no centro da experiência analítica conceitos que haviam sido progressivamente desviados por algumas correntes pós-freudianas.
Com Lacan, a própria questão da formação do analista ganha novos desdobramentos e a Escola passa a ocupar um lugar fundamental. Não uma escola no sentido tradicional, como uma instituição que oferece um curso, estabelece uma carga horária, concede um diploma e, ao final, diz: “agora você é psicanalista”. A autorização de um analista não é burocrática e a Escola não existe para fornecer uma credencial que garanta essa posição.
A Escola é lugar de formação, ensino e transmissão. Lugar onde o analista pode colocar sua prática em questão, estudar e trabalhar os conceitos, apresentar sua clínica, escutar outros analistas e sustentar uma relação permanente com a Psicanálise.
Freud já havia colocado a análise pessoal como condição fundamental para aquele que pretende conduzir uma análise. Lacan radicaliza essa questão ao interrogar o que faz com que alguém passe da posição de analisante à posição de analista. E essa talvez seja uma das questões mais delicadas quando falamos de formação, porque não há diploma, graduação, certificado ou quantidade de cursos realizados que possa responder por essa passagem. Tão pouco basta que alguém simplesmente se autodeclare psicanalista.
Tornar-se analista pressupõe uma formação, um percurso, uma experiência de análise, estudo teórico, supervisão, experiência clínica e tempo. Pressupõe também uma relação com a Escola e com a transmissão da Psicanálise e, sobretudo, uma responsabilidade ética daquele que se dispõe a ocupar essa função. A formação do psicanalista, portanto, não se encerra, é permanente, contínua, acompanha sua prática e seu percurso passo a passo.
Dito tudo isto, neste longo texto, na tentativa de colocar alguns pingos nos is, dar nomes corretos aos bois e lançar alguma luz sobre os equívocos entre termos, teorias e práticas, voltamos ao seu início para deixar ressoando a pergunta:diante do sofrimento psíquico e do adoecimento mental, a quem recorrer? Que esta interrogação sirva de alerta para não cair no engano das ofertas do mercado que vende como “terapia” aquilo que nem é terapêutico. E, principalmente, para não se deixar seduzir pelos profissionais do marketing pessoal que ostentam títulos e certificados comprados em cursos de formação instantânea, psicanalistas de ocasião, sem nenhum compromisso ético ou responsabilidade com seu próprio percurso. O sofrimento psíquico não é mercadoria.
E ter a escuta como ofício exige bem mais que certificados e títulos, pois estes não podem atestar a experiência do inconsciente.
GLAÚCIA PINHEIRO
Psicanalista e Doutorada em Psicologia.
Contatos:
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Cel/ Whats: 22 98151 0432
E-mail: galpinheiros03@gmail.com
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