Entre brincadeiras e curtidas: a nova geração de pequenos influencers

Você já quis ser paquita, cantor, jogador de futebol ou modelo? Pois é… o desejo de muitas crianças da década de 80 ou 90 era ser igual ao ídolo que aparecia na televisão ou fazia sucesso nas rádios.  Agora, no século XXI, ser influencer é um dos principais desejos das crianças. Para algumas, esse sonho já é uma realidade!

O mundo digital e a facilidade de criar uma página ou canal na internet fazem com que o desejo das crianças de hoje tenha um caminho um pouco mais curto, quando comparado às crianças do passado, mas o carisma, a espontaneidade e o conteúdo publicado é que vão gerar as desejadas curtidas, comentários e o sucesso esperado.

No início deste ano, a trend “o negócio do meu pai” estourou nas redes sociais e, muitos pais, se surpreenderam com o sucesso dos filhos na divulgação do seu negócio, dando um empurrãozinho nos desejos das crianças.

Pietro Lucas (7 anos) sempre se interessou por culinária, pela influência do seu pai Gerson Lucas. Ele desejada e de ter um canal, que se concretizou depois da trend “o negócio do meu pai”. Na foto, a mãe Tatiana, o pai Gerson e os irmãos Sofia e Luiz Felipe. (Foto Alle Tavares)
Pietro Lucas (7 anos) sempre se interessou por culinária, pela influência do seu pai Gerson Lucas. Ele desejada e de ter um canal, que se concretizou depois da trend “o negócio do meu pai”. Na foto, a mãe Tatiana, o pai Gerson e os irmãos Sofia e Luiz Felipe. (Foto Alle Tavares)

@chefpietrolucas

Esse foi o caso de Pietro Lucas (7 anos). Ele fez a trend no restaurante do pai, o Container 63, e o vídeo passou de 114 mil visualizações. “O desejo de ter um canal já existia muito antes da trend e acho que ela deu aquele empurrãozinho para a gente perceber: ‘Olha, as pessoas realmente gostam de assistir esse menino’”, conta a mãe Tatiana Mota.

Ela destaca que a exposição da criança na internet sempre foi uma preocupação para a família, mas o filho sempre pediu para gravar vídeos e ter um canal. “Toda vez que eu postava algum vídeo dele no meu Instagram, as pessoas comentavam sobre a desenvoltura e o carisma dele.  Até que tive a ideia de criar um Instagram fechado, só para a família. Mas ele foi crescendo e descobriu que o canal era ‘fake’. Aí não teve mais jeito! Assim nasceu o @chefpietrolucas. Mas sempre com um princípio muito claro para nós: precisa ser divertido para ele”, revela.

Tatiana ressalta o que é inegociável para a família. “A vida do Pietro não é organizada em função do Instagram. É o Instagram que precisa se encaixar na vida dele. Escola, família, brincadeiras, descanso, viagens, ficar à toa e simplesmente ser criança vêm primeiro”, frisa.

Dayane Cardoso, psicóloga da primeira infância, concorda com a importância da criança ter a infância preservada, a fim de cuidar da saúde mental dela. “O principal cuidado é garantir que a criança continue tendo uma infância de verdade. Ela precisa brincar sem estar sendo filmada, passear sem precisar produzir conteúdo, conviver com outras crianças, estudar, descansar e até ficar entediada. Tudo isso faz parte de um desenvolvimento saudável. Se toda a rotina da criança ou da família começar a ser pensada para produzir conteúdo, é necessário rever os limites”, afirma.

Pietro tem o pai, Gerson Lucas, como inspiração e muitos conteúdos publicados no Instagram são feitos com os dois. “Para mim, é muito especial ver o Pietro se inspirando em mim, mas acho que isso vai muito além da profissão. O que mais me toca é sentir que ele admira não só o chef, mas o homem e o pai que eu sou. A cozinha virou um espaço nosso, onde a gente brinca, cria, aprende e, principalmente, passa tempo juntos. O mais importante para mim é essa relação que estamos construindo e as memórias que vão ficar para a vida toda”, reforça o pai.

Pietro sabe muito bem o que deseja: “Agora que eu tenho Instagram, eu quero que ele fique bombado, famoso e com ‘din-din’”, diz o pequeno influencer, que tem o perfil controlado pelos pais.

Com o crescimento da página do Pietro, os pais começaram a se preocupar com a legislação vigente, o novo ECA Digital (Estatuto da Criança e do Adolescente Digital). “Buscamos orientação e estamos cuidando das questões e autorizações necessárias para que tudo seja feito da maneira correta”, reforça a mãe do pequeno.

Publicado em setembro de 2025 e em vigor desde março deste ano, o novo ECA Digital estabelece regras obrigatórias claras para proteger menores em redes sociais, jogos e sites, como: controle parental obrigatório; proibição de publicidade direcionada; alvará para monetização; entre outras.

A psicóloga Dayane Cardoso considera o novo ECA Digital um grande avanço, porque reconhece o ambiente digital como um lugar em que a criança se desenvolve.

“Ele traz uma ideia que considero especialmente importante: a responsabilidade é compartilhada. Não podemos colocar todo o peso sobre a família e, muito menos, sobre a própria criança. Pais, plataformas, sociedade e estado possuem responsabilidades diferentes nessa proteção. Hoje, não conseguimos mais separar completamente ‘vida real’ e ‘vida digital’. Aquilo que acontece na internet pode repercutir diretamente na autoestima, nos relacionamentos e no desenvolvimento emocional de cada pessoa”, avalia Dayane.

Laurinha Bersot (6 anos) nasceu famosa! Toda a gravidez da sua mãe, a influenciadora Catharina Bersot, foi acompanhada pelos seus mais de 43 mil seguidores. Ela já fez trabalho para grandes marcas como a Leader, quando tinha apenas 1 ano e sete meses. Carismática e desinibida, Laurinha continua trabalhando e encantando as milhares de “tias do Instagram”. (Foto Alle Tavares)
Laurinha Bersot (6 anos) nasceu famosa! Toda a gravidez da sua mãe, a influenciadora Catharina Bersot, foi acompanhada pelos seus mais de 43 mil seguidores. Ela já fez trabalho para grandes marcas como a Leader, quando tinha apenas 1 ano e sete meses. Carismática e desinibida, Laurinha continua trabalhando e encantando as milhares de “tias do Instagram”. (Foto Alle Tavares)

@laurinhabersot

Laurinha Bersot (6 anos) nasceu famosa! Toda a gravidez da sua mãe, a influenciadora Catharina Bersot, foi acompanhada pelos seus mais de 43 mil seguidores. “Tudo foi acontecendo naturalmente. Desde a gravidez, as lojas me procuravam para divulgar enxoval, depois roupinhas de bebê, e ela sempre me acompanhou no trabalho. Então, ela cresceu me vendo gravar e começou a pedir para gravar também”, conta Catharina.

Carismática e desinibida, Laurinha encanta as milhares de tias do Instagram. “Eu tenho uma comunidade muito boa e de maioria feminina. A gente conversa como amigas e acabou que todas as minhas seguidoras viraram tias dela. Às vezes, na rua, as pessoas param para falar com ela primeiro, para depois falarem comigo”, diz.

Laurinha já fez campanha para a Leader, quando tinha dois anos, e já saiu em dois outdoors. “Ela achou o máximo. Os amiguinhos falavam e ela adorava. Mas quando ela começou a ser mais procurada pelas marcas, a partir dos cinco anos, eu comecei a ponderar”, explica Catharina.

A mini influencer tem o Instagram dela, que não é de trabalho, e as postagens monetizadas são publicadas no perfil de Catharina e compartilhadas no da filha. Todo o controle da rede social é feito pelos pais. “Eu explico que nem tudo ela pode. Focamos muito no diálogo para que ela possa confiar em nós”, afirma.

Catharina tem uma advogada que cuida de todos os trâmites para o atendimento ao novo ECA Digital. “É importante estar dentro da lei e acompanhar tudo com muita supervisão”, frisa.

Guillermo (9 anos) sempre gostou de produzir vídeos em casa e entrou na trend “o negócio do meu pai” para a Italínea Macaé, que teve mais de 50 mil visualizações. Ao lado, o irmão Henrico, a mãe Milena e o pai Rodrigo Arenales, prorprietário da Italínea. (Foto Alle Tavares)

@guillermoarenales_villaare

Guillermo Arenales (9 anos) sempre gostou de produzir vídeos em casa e, por isso, surgiu a ideia da família de chamá-lo para fazer a trend “o negócio do meu pai” para a Italínea Macaé. “Para nossa surpresa, o vídeo teve mais de 50 mil visualizações e ele super curtiu. Com o sucesso, nós abrimos o Instagram dele e o incentivamos, mas não deixamos ele à vontade. Tudo é supervisionado”, revela Milena Aranales, mãe de Guillermo.

A empresária conta que o filho faz vídeos para os negócios da família e que Guillermo fala que queria mais visualizações. Nas lojas, o apelido dele é chefinho. “Ele sabe que está gravando para a loja, mas o nosso objetivo é que esse momento seja uma grande brincadeira, sem pressão, e tudo com muita espontaneidade. Não queremos que isso gere uma ansiedade nele”, afirma.

Milena destaca que todas as orientações jurídicas do novo ECA Digital são respeitadas nas publicações feitas pelo filho.

Todas as mães entrevistadas informaram que nunca se depararam com mensagens maldosas nas redes sociais para os filhos, mas sempre estão em alerta. A psicóloga Dayane faz um destaque para esses casos.

“Comentários sobre aparência, corpo, inteligência, comportamento ou personalidade podem atingir justamente aspectos que ainda estão sendo construídos na criança. Se ela tiver contato com algum comentário ofensivo, os pais devem acolher o sentimento antes de tentar minimizá-lo”, explica.

Dayane Cardoso, psicóloga da primeira infância, destaca a importância da criança ter a infância preservada, a fim de cuidar da saúde mental dela. (Foto Alle Tavares)
Dayane Cardoso, psicóloga da primeira infância, destaca a importância da criança ter a infância preservada, a fim de cuidar da saúde mental dela. (Foto Alle Tavares)

A psicóloga finaliza com uma importante reflexão para os pais. “As experiências da infância participam profundamente da construção de quem nos tornamos. Por isso, mais do que pensar no adulto que queremos que essa criança seja amanhã, precisamos cuidar da criança que ela está sendo hoje”, conclui Dayane.

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