Poucos pedidos são tão recorrentes na infância quanto: “Eu quero um cachorro!”. Para muitas famílias, a insistência começa com uma promessa de que a criança vai cuidar de tudo: colocar comida, trocar a água, passear…Na prática, porém, ter um animal de estimação é uma decisão que envolve toda a família e que vem junto com uma super responsabilidade que permanece por toda a vida do pet.
Quando essa convivência acontece de maneira responsável, os benefícios podem ir muito além das brincadeiras.
O contato cotidiano com um animal pode favorecer o desenvolvimento da empatia, da autonomia, da responsabilidade e da capacidade de reconhecer emoções. Também pode estimular uma rotina mais ativa e criar vínculos afetivos importantes para o desenvolvimento infantil.
O Cenário das Famílias com Pets no Brasil
Os dados estatísticos mais recentes confirmam que os lares brasileiros passaram por uma mudança cultural drástica. Segundo o Censo Demográfico do IBGE e monitoramentos da Associação
Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação (Abinpet), a população de animais de estimação no país gira em torno de 150 a 160 milhões de animais.
Historicamente, indicadores do IBGE já apontavam que, a cada 100 famílias brasileiras, 44 criavam pets, enquanto apenas 36 tinham crianças de até 12 anos.
Para a psicóloga Edinalva Rangel, a convivência com animais proporciona aprendizados que dificilmente ficam apenas no discurso. “Ao participar dos cuidados, a criança aprende, na prática, a reconhecer as necessidades do outro e percebe que suas atitudes podem influenciar o bem-estar de outro ser vivo”, explica.
É uma lição que começa nas pequenas tarefas. Colocar água, ajudar na alimentação, guardar os brinquedos do pet ou participar de uma brincadeira são atividades simples, mas que mostram à criança que cuidar também é uma forma de demonstrar amor. Ao mesmo tempo, ela aprende que o animal tem vontades e limites próprios.
“O animal não é um brinquedo: ele tem preferências, limites e pode não querer contato. Aprender a reconhecer esses sinais contribui para relações mais empáticas e saudáveis”, destaca Edinalva.7

Uma amizade que começa cedo
Na casa de Samara Guedes e Diego Bassetti, essa relação começou antes mesmo do nascimento do filho, Miguel, hoje com 1 ano e 7 meses. Tobias, o cão da família, um Golden Retriever, já fazia parte da rotina da família quando o bebê ainda estava na barriga da mãe. Durante a gravidez, ele ficava muito próximo da barriga de Samara. Para facilitar a adaptação à chegada do novo integrante, Diego levou para casa uma roupinha usada por Miguel, para que Tobias se acostumasse ao cheiro do bebê antes do encontro.
Os primeiros meses exigiram atenção e adaptação. Tobias tinha o hábito de dormir no quarto dos pais e precisou lidar com os despertares noturnos provocados pelo choro do bebê. Também houve um período de ciúmes diante da divisão da atenção. Aos poucos, porém, os dois encontraram seu próprio jeito de conviver.
Hoje, a amizade aparece nas cenas mais simples: Tobias fica de guarda no quarto enquanto Miguel dorme, acompanha o menino durante as brincadeiras e não sai de perto. Miguel, por sua vez, acorda chamando pelo “Totó”, tenta dividir a comida e já participa dos cuidados com o cão.
Para a família, uma cena resume essa relação: Tobias deitado no chão e Miguel se aproximando para deitar sobre ele, abraçá-lo e dar um beijo. “O Tobias ensinou ao Miguel que o amor não precisa de semelhanças. Mesmo sendo tão diferentes, eles aprenderam a se amar, cuidar um do outro e ser grandes companheiros e cúmplices”, resume Samara.
Afeto que acolhe
A relação com um pet também pode se transformar em uma importante fonte de acolhimento emocional. Em momentos de tristeza, frustração ou ansiedade, a presença do animal pode oferecer companhia sem julgamentos ou cobranças.
Acariciar, brincar ou simplesmente permanecer perto do pet pode ajudar a criança a se regular emocionalmente e, muitas vezes, facilitar a expressão de sentimentos que ela ainda não consegue nomear. “A presença do animal pode oferecer acolhimento e segurança”, afirma Edinalva.
Isso não significa, porém, que o pet substitua a presença dos adultos ou um acompanhamento profissional quando necessário. O animal pode ser um aliado no cotidiano, mas continua sendo parte de uma rede de cuidado que envolve família, escola e profissionais de saúde.
A pediatra Dra. Klara Rodrigues também chama atenção para a amplitude desses benefícios. Segundo ela, a convivência com animais pode contribuir para aspectos socioemocionais, linguagem, coordenação motora e desenvolvimento cognitivo.
Correr, brincar, jogar objetos e passear, por exemplo, favorecem o movimento, o equilíbrio e a noção espacial. Já as conversas e comandos dirigidos ao animal criam oportunidades de comunicação. A criança também observa comportamentos, antecipa rotinas e aprende que determinadas ações produzem determinadas respostas.
E existe ainda o incentivo a uma infância mais ativa. “O passear, correr e brincar com o animal estimula o desenvolvimento motor e favorece uma rotina mais ativa, reduzindo o risco de obesidade na infância e o tempo de tela”, explica a pediatra.

O “irmão” de quatro patas
Para Melissa e Jairo Antunes, o cachorro Zé ocupa um lugar especial na vida do filho Murilo, de 6 anos. O menino já havia crescido convivendo com cães, mas a chegada de Zé foi diferente.
Depois da perda de outro cachorro da família, eles passaram um ano e meio sem pet. Quando Zé chegou, ainda filhote e cheio de energia, Murilo ficou inicialmente receoso. Foram necessários alguns dias para que o medo desse lugar à confiança.
Depois disso, como conta a família, foi “um encontro de almas”. Hoje, os dois brincam, correm pela casa, dormem juntos e, como verdadeiros irmãos, também implicam um com o outro. Murilo ajuda a trocar a água e colocar a ração e demonstra preocupação constante com o companheiro. Antes de sair, sempre se despede com um beijo e chama Zé carinhosamente de “amorzinho”.
A relação é tão próxima que o cachorro também parece ter criado seus próprios rituais. Quando Murilo acorda e chama pelos pais, Zé é o primeiro a correr para o quarto. Para Melissa, a presença de Zé também preenche um espaço afetivo importante na vida do filho. “O amor não precisa de palavras para ser expressado. Ele pode ser transmitido de várias formas, como a lealdade, carinho, presença e proteção”, destaca a mãe.
Uma rotina que ensina
Os aprendizados proporcionados pelos animais acompanham diferentes fases da infância. Para a pediatra, os bebês podem ser estimulados sensorialmente pela presença do animal, por meio de sons, cheiros e diferentes texturas. Entre 3 e 5 anos, a observação do comportamento do pet ajuda a criança a perceber sinais de medo, desconforto ou alegria, favorecendo a compreensão de emoções e limites.
À medida que cresce, ela pode assumir pequenas responsabilidades, sempre com supervisão dos adultos. Foi assim com Manuela, de 11 anos, e Anna, de 9. A família de Milena Monteiro e Bruno Santos ganhou Branca de Neve, uma Lulu da Pomerânia, em agosto de 2022. A chegada foi uma surpresa preparada pelo pai. As meninas ficaram eufóricas. De tão pequena, Branca parecia um brinquedo aos olhos delas.
A presença da cachorrinha teve um significado especial para Manuela, que tinha medo de cães. A convivência diária permitiu que ela desenvolvesse confiança e transformasse o receio em carinho.
Hoje, as meninas participam dos cuidados dentro do que conseguem. Para a família, a convivência trouxe ainda mais empatia, responsabilidade, paciência e respeito pelos animais. Quando estão tristes, as meninas procuram Branca em busca de companhia.
Uma das cenas que mais chama a atenção da família acontece durante as viagens. Quando as malas começam a ser arrumadas, Branca percebe que alguma coisa está diferente e fica mais quieta.
As meninas conversam com ela, explicando que vão viajar e que voltarão em breve. Em outros momentos, a cachorrinha demonstra que também conhece perfeitamente os rituais da casa: quando a portaria avisa que chegou uma entrega de comida, ela imediatamente se anima e acompanha a família até a porta.
A frase escolhida pela família para definir o aprendizado dessa convivência resume a transformação de Manuela. “A Branca ensinou às meninas que o amor, a confiança e o carinho podem transformar até mesmo um medo em uma das mais bonitas amizades”.

Benefícios, mas também responsabilidade
Se os animais podem contribuir para uma infância mais ativa, afetiva e responsável, a decisão de ter um pet precisa considerar também as necessidades do próprio animal.
O médico veterinário Sérgio Luiz Ibrahim, da Clínica Vet SLIM, alerta que não existe uma fórmula única. A idade da criança, o temperamento do animal, o espaço disponível e, principalmente, a rotina da família precisam ser avaliados antes da adoção ou aquisição.
Crianças muito pequenas ainda não têm compreensão suficiente para entender os limites de um cão ou gato e podem machucar o animal durante uma brincadeira. Em resposta, mesmo um animal dócil pode reagir para se defender. Por isso, a convivência entre crianças pequenas e pets deve ser sempre supervisionada.
A rotina dos adultos também pesa nessa decisão. Cães e gatos são animais que precisam de atenção, interação e companhia. Famílias que passam o dia inteiro fora de casa devem avaliar se conseguirão oferecer a qualidade de vida necessária aos animais.
“Cachorro e gato precisam muito da atenção, do contato físico com o proprietário. São animais que gostam de companhia”, explica o veterinário. Segundo ele, quando a rotina familiar não comporta esse compromisso, é preciso considerar alternativas mais compatíveis com o estilo de vida da casa.
A saúde também merece atenção. A primeira providência após a chegada de um animal deve ser uma avaliação veterinária. Vacinação, vermifugação, controle de pulgas e carrapatos, exames periódicos, alimentação adequada e higiene são fundamentais para proteger tanto o pet quanto as pessoas que convivem com ele.
A pediatra Klara Rodrigues acrescenta que famílias de crianças com rinite alérgica, asma, doenças de pele crônicas ou imunidade comprometida devem conversar previamente com o pediatra. Ela ressalta que não se deve acreditar que animais “sem pelos” ou determinadas raças consideradas hipoalergênicas eliminem completamente o risco de alergias, já que substâncias presentes na pele, saliva e urina também podem desencadear reações.
Higienizar as mãos depois do contato com o animal, cuidar adequadamente das fezes e manter a saúde do pet em dia são atitudes simples que fazem parte desse equilíbrio.
Um compromisso para toda a vida
Existe ainda uma parte da experiência que nem sempre é lembrada quando a criança pede um animal: o pet envelhece. Doenças, limitações e, eventualmente, a morte fazem parte do ciclo de vida.
Para uma criança, perder um animal que esteve presente durante anos pode ser uma das primeiras experiências concretas de luto.
“Seu sofrimento nunca deve ser minimizado”, orienta Edinalva. Com o acolhimento dos adultos, esse momento pode ajudar a criança a compreender os ciclos da vida, elaborar a saudade e guardar boas lembranças.
É justamente aí que a experiência de crescer com um animal revela sua dimensão mais profunda. No fim, talvez seja esse o maior presente que uma convivência responsável entre crianças e animais pode oferecer: a compreensão de que o afeto não está apenas em receber companhia, mas também em cuidar, respeitar e estar presente.
Porque, entre uma brincadeira, um passeio, uma tigela de água e um abraço apertado, a criança vai descobrindo uma das lições mais importantes da vida: quem ama, cuida.


