Quando um filho nasce, universo se inicia na vida de um casal. Com o passar dos anos, a rotina, logística, agendas e compromissos passam a ser ditados em razão das necessidades desse novo ocupante da família. E quando eles crescem e dão início à sua vida independente fora de casa?
Para os pais, começa uma nova etapa, marcada por saudade, orgulho, descobertas e, algumas vezes, pela sensação de não saber exatamente o que fazer com o espaço que ficou. Conhecido como “síndrome do ninho vazio”, esse período faz parte do ciclo natural das famílias. Há quem ainda esteja se preparando para ele, quem tenha descoberto uma nova dinâmica a dois e também quem tenha precisado reaprender a cuidar de si depois que o filho ganhou o mundo.

Karina e Rangel: preparando o voo da filha única Isabella
Aos 18 anos, Isabella Chaves Guimarães se prepara para dar um passo importante rumo à independência: deixar Macaé para estudar em outro estado. Filha única de Karina Queiroz e Rangel Guimarães, ela cresceu sendo estimulada pelos pais a fazer escolhas e resolver as próprias questões. “Eles sempre evitavam fazer as coisas por mim, me ensinavam e depois falavam para eu fazer sozinha”, relata ela apontando que, apesar dos sentimentos envolvidos com a mudança, a qualidade do ensino pesou em sua balança para a definição de onde gostaria de estudar.
Para Karina, a maior preocupação é a segurança, além do fato de ter que se acostumar a uma nova rotina, já que a filha é sua grande companheira do dia a dia. “Fazemos muitas coisas juntas, academia, salão e diversos momentos do cotidiano. Por isso, essa mudança não significa apenas não a ter aqui, mas uma nova organização na minha própria rotina”, informa Karina.
Já Rangel, o pai, encara a partida como algo natural do ciclo da vida e tem na fé uma aliada para a segurança na escolha da filha. “O papel dos pais é preparar o filho pra vida, quem cuida mesmo é Deus e vê-la se empenhando em fazer algo assim é muito bom, principalmente, quando vemos que muitos jovens hoje em dia estão acomodados. Ela não. Sempre correu atrás do que queria fazer, assim como foi um tempo atrás, quando ela se inscreveu para um curso em Harvard e ficou 30 dias estudando em Boston-EUA”, avalia.
Enquanto a filha se prepara para voar, os pais também começam a imaginar uma nova rotina, inclusive como casal. Sem a logística diária de levar, buscar e acompanhar a filha, surge a possibilidade do treino em conjunto na academia, entre outras programações.

Thyane e Léo: entre a saudade e a adaptação a uma nova rotina
Para Thyane Portugal e Léo Fonseca, o processo foi lento e doloroso. Inicialmente Sarah, 25 anos, saiu de casa para cursar Medicina na UFF, em Niterói. Depois, foi a vez de Leon, de 20 anos, que optou por Economia na IBMEC, no Rio de Janeiro. A diferença de idade entre os filhos permitiu que o casal tivesse alguns anos para se adaptar à distância antes de experimentar, de fato, o ninho vazio.
Sarah deixou Macaé em 2019 para fazer curso pré-vestibular. Porém, já na faculdade, a pandemia trouxe temporariamente a filha de volta para casa. Quando ela partiu novamente, os pais já haviam passado por uma espécie de ensaio da despedida. Com a saída do segundo filho em 2024, foi diferente. “Nesse momento, a gente sentiu mais, porque realmente ficamos só nós dois, os dois gatos e os dois cachorros”, brinca Thyane.
Segundo o casal, a saudade só foi aumentando, mas passaram a desfrutar momentos de maior conexão. “Sarah nasceu logo no início do nosso casamento. Por isso, nunca havíamos vivido uma fase apenas nós dois, pois já no primeiro ano passamos a ser também pai e mãe. Agora, depois de 25 anos de casados, estamos vivendo pela primeira vez essa experiência a dois com mais tranquilidade, transformando momentos antes corridos como o café da manhã, em oportunidades de mais conversa e interação”, conta Thyane.
“É difícil saber quem sente mais falta deles, eu ou Léo”, afirma Thyane. Ela reconhece que se não fosse a sua intensa rotina no consultório odontológico, certamente sofreria ainda mais. Já para o pai, os momentos de reencontro acentuam a saudade.
“Depois que a gente se encontra, parece que a saudade aumenta, porque eu volto a me acostumar a estar com eles. Quando esse momento acaba, demoro um pouco para me adaptar novamente à ausência”, afirma Léo.
Se há um conselho que pode ajudar a atravessar essa fase, o casal destaca a importância de cultivar a relação a dois, mas, simultaneamente, não deixar de preservar a individualidade de cada um.

Costa Lima matam as saudades do filho nas férias e em datas especiais, como aniversário e Dia das Mães. (Fotos de arquivo)
Vânia e Renato: entre orgulho, luto simbólico e a retomada
Otávio tinha 21 anos quando deixou Macaé para cursar Engenharia Elétrica na Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), em Vitória. Hoje, já são cerca de dois anos vivendo longe dos pais, Vânia Coutinho e Renato da Costa Lima.
A saída não foi uma surpresa. Desde pequeno, Vânia procurou criar o filho para a autonomia. Ele aprendeu a cozinhar, a cuidar das próprias tarefas e a assumir responsabilidades. “Eu não sentava com ele para estudar, não preparava a mochila, deixava ele passar pelas situações”, conta.
Ainda assim, quando a saída de casa se tornou realidade, veio o impacto. Vânia percebeu que uma parcela enorme da sua energia estava dedicada à família e ao funcionamento do lar. Quando Otávio se estabeleceu em Vitória, ela descreve ter vivido uma sensação inesperada: “Eu me senti demitida”.
Vânia entrou em uma espécie de inércia, que durou alguns meses. Apesar de continuar trabalhando, ela perdeu parte da disposição, da energia e dedicava horas a ver séries na Netflix. Foi a partir de um desconforto no pescoço que ela percebeu o alerta. “Estava vivendo uma espécie de luto, um luto psicológico. Aquela dor me fez acordar, foi uma virada de chave, percebi que precisava colocar meu corpo novamente em movimento, me resgatar e reverter aquele processo”, reflete.
Hoje, a realidade é outra. Vânia se considera ativa, trabalhando e mais conectada consigo mesma. A relação com Otávio também ganhou uma nova configuração: os pais oferecem suporte, mas respeitam a independência do filho.
Renato, por sua vez, viveu a partida com relativa tranquilidade. Sua própria experiência de ter deixado a casa dos pais para estudar contribuiu para compreender aquele momento. Ele sentiu o peso da despedida, mas não encarou a mudança como um trauma. A distância também abriu espaço para uma nova relação entre pai e filho, agora baseada em conversas, orientações e troca de experiências. “Eu acho que a saída de casa é importante para a construção da estrutura emocional. É um afastamento que fortalece o filho, porque ele começa a construir a própria vida, mas sabe que os pais continuam ali como um porto seguro”, avalia o pai.

Não é preciso sofrer para provar que se ama
Cada família vive o ninho vazio de uma maneira. E nesse processo, uma coisa é fundamental: não existe uma única forma “correta” de sentir. A psicóloga Evelin Maia da Costa aponta que a saída dos filhos deve ser compreendida como uma transição natural do ciclo familiar, e não como uma experiência que obrigatoriamente precisa ser acompanhada de sofrimento.
Isso não significa, porém, negar a saudade ou tentar transformar o processo em tristeza ou felicidade artificial. O caminho está justamente em reconhecer o que se sente. “A gente precisa validar os sentimentos, também nessa etapa, seja de sofrimento pela falta, como também pela alegria desse momento, e o orgulho pela conquista do filho”, afirma Evelin.
No entanto, é preciso estar atento a sintomas como tristeza profunda, perda de propósito e dificuldade em achar significado na rotina após o fim do cuidado direto. Ansiedade, por preocupação exagerada com a segurança e o bem-estar do filho, e problemas no sono, por exemplo, são indícios de que se deve procurar ajuda profissional para tratar e prevenir o aprofundamento do quadro.
Evelin chama atenção ainda para a importância de os pais permitirem que os filhos construam a própria trajetória. O excesso de apego pode prolongar uma dependência emocional, interferindo inclusive na vida futura dos filhos, nos relacionamentos e na vida profissional.
“A maior herança que a gente precisa transmitir para os nossos filhos é o desejo de viver, de conquistar, de desbravar, de saber que podem ir, mas que também podem escolher ficar ou retornar após terem ido, esse movimento é muito saudável e estabelecer essa relação de confiança entre pais e filhos é primordial para a segurança das relações”, reforça a psicóloga.
Com o ninho vazio, há momentos em que a saudade aperta, a nostalgia se faz presente, a vontade de querer voltar e segurar o tempo é latente, mas os filhos crescem e seguem suas próprias trajetórias. E esse momento também abre espaço para que outras tantas histórias sejam escritas a partir do começo dessa nova fase que se inicia para todos.