Para Hugo Dias, a gastronomia nunca começou dentro de uma cozinha profissional. Surgiu ainda na juventude, de forma espontânea, entre amigos e experiências improvisadas. “Inventávamos sabores de macarrão instantâneo e, com o tempo, o instantâneo virou uma macarronada de verdade”, relembra. O que começou como curiosidade, evoluiu para receitas mais elaboradas até se transformar em profissão e, mais tarde, em uma verdadeira e intensa pesquisa sobre cultura, memória e identidade.
Hoje, Hugo acumula diferentes funções: chefe de cozinha, dono do Bar do Djalma e pesquisador gastronômico. Mas, segundo ele, sua maior formação veio da rua. Depois de cursos técnicos, passagens por restaurantes de alto padrão e da criação do seu primeiro empreendimento, a Santo Alho, foi nos botequins que encontrou sua principal escola.

Frequentador assíduo desse universo, ele enxerga os bares como espaços que vão muito além da comida. “O botequim é um centro cultural onde se assiste o dia a dia acontecer”, define. Para ele, são lugares onde diferentes histórias, classes, pessoas, olhares e trajetórias se encontram. O trabalhador, o jovem, o aposentado, o pedreiro, o médico, o desiludido bebendo com o cara que tá comemorando uma grande vitória. Todo mundo junto.
Foi justamente dessa percepção que nasceu o projeto de mapeamento dos botecos de Macaé, viabilizado pela Lei Paulo Gustavo. A proposta surgiu do desejo de registrar histórias que, muitas vezes, sobrevivem apenas na memória contada. “Esses lugares quase não possuem registros. A única maneira era ir até lá, ouvir e viver aquilo. Viver isso é fascinante, ter acesso mais íntimo com figuras tão icônicas da cidade e escutar suas histórias é um verdadeiro presente”, conta.

Durante o processo, Hugo colecionou encontros marcantes. Um deles foi com Paulo, proprietário do tradicional bar Tô a Toa, que soma mais de quatro décadas atrás do balcão. Outro personagem é o Preto, da Nova Holanda, conhecido pelo famoso torresmo e também por ser campeão dos desfiles do Boi Pintadinho. Histórias estas que, para Hugo, revelam algo maior: o bar como ponto de encontro entre sustento, cultura e pertencimento.
Ao observar o cenário gastronômico de Macaé, ele acredita que a cidade vem conquistando espaço, mas ainda precisa olhar mais para sua essência. “A Macaé profunda precisa ser mais conhecida.” Enquanto isso, ele continua seguindo sua pesquisa pelas ruas. Afinal, como gosta de dizer: onde existe botequim, sempre há uma história esperando para ser contada. “Com olhar atento, nenhuma ida ao bar é em vão. E meu olhar se transformou quando ganhei o maior presente da minha vida, do meu mestre, meu sogro, que é o bar do Djalma, onde eu aprendi realmente o que é a vida de um botequim do balcão pra dentro.”




